Os jovens e a marca-dependência

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   Olá novamente! O fim-de-semana aproxima-se a passos largos e com ele, a Páscoa o que para muitos pais significa dar prendinhas aos filhotes. Tão lindo não é?! Até poderia ser não fosse esta coisa, sim coisa, porque não encontro um nome ou explicação suficientemente credíveis para designar a mania que os miúdos agora têm que tudo o que vestem, ou consomem no que toca a gadgets, acessórios e traquitanas em geral, deve obrigatoriamente ser de uma marca cool e trendy, que é como quem diz fixe e usada por todos os seus pares. Aproveito entretanto para esclarecer que não me refiro a adolescentes acima dos 15 pois esses sempre foram maria-vai-com-todos manientos ansiosos por estar super na moda, eu incluída nessa altura claro.

   O meu comentário, e de certo modo a minha indignação, respeita a todos os cheira-a-fraldas entre os 9 e os 14 anos, que já se acham o último unicórnio na Terra dos Póneis, pensando que o seu miserável pêlo púbico perdido num deserto de pele de bebé lhe dá o direito de exigirem, é isso mesmo, exigirem produtos de marca! Mas onde é que já chegámos?! Quando era catraia também pedia objectos de marca (ainda que com uma ligeireza muito maior), mas bastava um rotundo “Não” e eu tirava dali o sentido.

   Mas hoje em dia os garotos governam definitivamente, ora se assim não é expliquem-me lá qual é a justificação para permitir que uma criança de 10 ou 11 anos gaste 60€ nuns ténis só porque têm lá escrito de ladecos ADIDAS ou PUMA? Ah sim, para quem não sabia desta nova jogada, quando os pais dizem que não têm dinheiro, os miúdos aprontam-se logo: “Então eu compro com o dinheiro dos anos, Natal, Páscoa, Carnaval, Dia dos Mortos, …”. E agora há alguém que sugere: Se o dinheiro é deles, se o juntaram, porque não o hão de gastar como bem entenderem? A minha resposta é simples, poder podem pessoal, apenas me parece que estamos claramente a ensinar a estas crianças que se encontram ainda em fase de construção da sua personalidade, que a validação de quem são passa por adquirir e exibir peças caras. Desculpem a minha possível tacanhez, mas primeiro há que educá-los a poupar, a gerir o seu dinheiro, a partilhar no caso de necessidade súbita da família ou a saberem fazer as melhores escolhas no que concerne a preço/qualidade. O dinheiro tem valor, muito mais do que as marcas, porque numa aflição não são elas que põem comida na mesa.

   Obviamente que não partilho da visão fundamentalista de que devíamos regressar aos tempos dos nossos pais em que, pobres coitados, pouco tinham e nem sequer ousavam pedir o que fosse, pois só isso era motivo suficiente para uma reprimenda de orelha. Não acho mal que, nos seus anos o jovem possa adquirir UM e apenas UM item que efectivamente desejava, com a consciência de que foi um voto de confiança e incitando à responsabilização pelo tratamento devido ao mesmo. A questão é que dar permissão constante para que eles, de cada vez que sai uma nova moda, possam comprar o que seja que eles “não podem viver sem”, perpétua a noção de infinito e desvaloriza cada uma dessas aquisições, pois na verdade eles nada tiveram que fazer para obter aquele dinheiro.

   Não podemos transformar o “Não” num desporto nacional, caso contrário arriscamo-nos a que eles se tornem demasiado engenhosos na demanda de conseguir o que querem, mas também se usarmos o “Sim” despudoradamente, como irão eles dar valor às pequenas conquistas? O que terão eles para almejar que os obrigue a alguma luta e suor?

   E quando nos oferecemos para comprar uma réplica ou uns muito parecidos mas sem o tal emblema, e eles respondem com tal ar de asco, que mais parece que lhes estamos a pedir para darem beijinhos a um cócó (piada cá de casa): “Achas, se não são verdadeiros não quero!” Quando é que nós nos tornámos assim tão materialistas e vazios, para que os nossos rebentos se sintam de tal modo diminuídos sem símbolos de estatuto, desde tão tenra idade?

   Será tudo culpa da publicidade? Será esta um Monstro de Loch Ness de tamanha dimensão que consegue penetrar na cabeça das nossas crianças e bloquear-lhes a habilidade de pensarem por si só? E os auto-denominados “influencers”, qual é o seu quinhão de culpa? Entre um e outro não vos sei dizer se há um nível que os distinga ou sequer se são a instância máxima desta charada, o que eu sei é que entre o poder que estes exercem nos media e a vontade maior de muitos pais de darem aos seus filhos muito do que eles próprios não puderam ter, acabamos com uma combinação explosiva de meias-culpas e desapegos que atuam, em última análise, contra os interesses destas crianças e jovens.

   Seja como for, ser assertivo é essencial para uma educação equilibrada e contínua. Mas mais do que isso, dar o exemplo. Podemos ter coisas de marca mas não podemos fazer disso o centro da nossa vida ou da deles, e às vezes teremos que dizer que não  para lhes podermos incutir valores mais altos e preciosos.

   Enjoy 🙂

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2 pensamentos sobre “Os jovens e a marca-dependência

  1. Rita Francisco

    Não convivo muito com crianças dessa idade, por isso não posso opinar muito. Colocar a culpa nas crianças, nos influencers, nos pais também não me parece bem. Deve ser um pouco de cada um e mais alguns fatores.
    Na minha altura, por acaso nunca fui de modas e marcas. A não ser nos cadernos e marcadores (quando era a altura do regresso às aulas). Mas mais uma vez não posso opinar, eu era a marrona (eheh). Um beijinho professora

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  2. Camila blog

    Concordo em absoluto. Se há uns anos atrás os produtos de marca branca não tinham qualidade e talvez por isso, apesar de caros, fosse compensatório comprar os de marca, hoje em dia não se verifica isso. Há marcas como a parfois, a bershka e etc que têm roupa e calçado a bons preços e que servem perfeitamente para o efeito. Até porque se é para romper e é, mais vale algo em conta.
    Pior disto tudo é haver miúdos que escolhem não entender que os pais simplesmente não podem, que o dinheiro não estica.. acho triste mesmo.

    Um beijinho

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