As crianças e a mentira

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foto: Janko Ferlič em Unsplash

   Olá caríssimos, como corre a vida? Não se esqueçam de inspirar bem fundo e expirar gentilmente, partindo do estômago, para que todas as más energias saiam cá para fora e se sintam revigorados, logo pela manhã e ao deitar.

   O que me traz por cá hoje são as crianças. Essas grandes marotas, tão sedentas de aventura e desafios. Desde a infância e até à idade adulta, são várias as fases porque estes pequenos seres falantes passam. Cada uma delas mais desafiante e bicuda que a anterior, mas todas elas etapas fundamentais do seu desenvolvimento e da sua descoberta enquanto “eu” independente da mãe.

   A mentira é algo intrínseco ao ser humano. Mais, havendo variadíssimas razões para as praticarmos, nem todas me parecem assim tão horripilantes e demoníacas. Por vezes, uma pequena “peta” (na gíria dos portugueses) vem acompanhada de uma intenção marcadamente positiva, quer seja para possibilitar uma surpresa, facilitar o sorriso de alguém ou até evitar um breve ralhete por um “acidente” cómico. O certo é que não somos capazes de existir sem elas e, na sua grande maioria, são potenciais causadoras de enormes desastres, como se de um violento tsunami se tratasse.

   Ora, se para nós adultos os resultados podem ser efectivamente catastróficos e dilacerantes, no mundo dos pequenitos as mentiras ou as “não verdades” – como serão mais facilmente compreendidas na mente da criança – adquirem toda o uma nova relevância.

   Por norma, as crianças começam a mentir pelo mesmo motivo que em dada altura começaram a andar, porque é um comportamento visível nos pais ou nos restantes adultos que fazem parte da sua vida. Parece-me que é um processo tão natural que é por esse mesmo motivo que eles nem se apercebem das suas implicações. Geralmente, as primeiras “não verdades” dos garotos passam mais pela fabulação, isto é pela criação de historietas fantásticas que consigam mascarar ou justificar um determinado comportamento seu. Por exemplo, a minha sobrinha de 4 anos, sempre que é picada pelo bicho da preguiça (essa terrível praga) e se depara com um navio de brinquedos a precisar de arrumação, automaticamente se sente afectada por toda uma série de enfermidades mirabolantes que de alguma forma sirvam de atestado para o não cumprimentos do seu dever de criança.

   É então que surge a expressão: “Não fui eu!”. Qual frase feita de um filme romântico, esta torna-se a sua defesa rápida para qualquer peripécia daí em diante. Para os mais criativos, muitos dos futuros artistas deste Mundo, criam-se personagens dignas de filmes galardoados, são os chamados “amigos invisíveis”. Quando confrontados com uma asneirola, os pequenos acreditam haver apenas dois cenários possíveis que resolução: o assumir da sua conduta, o qual inevitavelmente irá gerar um castigo – sendo que no seu contexto de vida, a mais pequena punição quando tratada com seriedade parece sempre um Gigante Adamastor, ampliado num Zoom de 500%, com o único propósito de arrancar cabeças e destruir aldeias (isto vindo de um adulto com a mentalidade de uma criança de 7 anos); ou a mentira, a qual na sua inocência deturpada, se assemelha à romantização de um Conto de Fadas – para quem possa desconhecer, passámos a nossa infância a ser enganados com finais felizes de histórias mais diabólicas e aterrorizantes do que um Exorcista com esteróides, num sub-mundo de criaturas perversas.

   O cerne da questão, a meu ver, não está na mentira em si, mas no motivo para o aparecimento da mesma. O que faz com que a criança se sinta obrigada a forjar um episódio, principalmente a partir dos 9/10 anos de idade, etapa após a qual acredito piamente que os miúdos perdem muita (se não toda) a sua inocência e entram no Mundo real, sendo já totalmente capazes de separar o certo do errado, o bom do mau? Para mim, é neste momento que a postura dos adultos poderá fazer toda a diferença no desenrolar da identidade da criança.

   Se decidirmos “empurrar com a barriga”, acreditando que não há intuito de maldade e por conseguinte não é necessária consequência negativa, estaremos apenas a aceitar que mentir não faz mal e pode ser feito sem causar estragos. Eu imagino a criança como um puzzle. Ora pensem, desde que ela nasce que vai adquirindo peças e solucionando enigmas para as poder encaixar umas nas outras correctamente, formando assim a sua “pessoa”. Cada mentira ignorada, é transformada numa peça errada do puzzle, falaciosamente colocada para encobrir o facto de que a mesma não pertence ali. Trocando por miúdos, seria o equivalente a puxar o edredão na cama, sem esticar e entalar os lençóis devidamente por baixo!

   Faço ainda uma chamada de atenção especial para quem tem filhos de pais separados. Cada vez mais esta é uma realidade nas nossas famílias, e temos que aprender a lidar com isso de forma saudável e descomplicada. Agora, têm que pensar que estas crianças desde cedo aprendem a utilizar a mentira como forma de manipular ambos os pais, que muitas vezes se sentem culpados da situação e tendem a “overcompensate”, que é como quem diz a exagerar nos mimos, oferendas, perdões e facilitar em tudo o que sejam os deveres exigidos aos filhos.

   Para os que estejam a ler e se sintam escandalizados pelo meu uso livre de palavras como manipulação, não se esgadanhem já. Não sejamos alarmistas, achando que há algo de errado com as nossas crianças. Acima de tudo devem simplesmente aceitar que tudo na vida se aprende, e por norma desde pequenos e as características menos positivas do ser humano não são excepção, pelo que há que reconhecer estes comportamentos para que possamos intervir atempadamente e corrigi-los.

   Mais do que prendas e abracinhos vazios, o que os nossos garotos precisam é de pais presentes, fortes e capazes de dizer sim ou não, estabelecendo uma relação de confiança entre pais e filhos.

   Enjoy 🙂

 

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