E vivi feliz para sempre

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foto: Cristian Escobar em Unsplash

   Olá gente gira! Como estamos de amores? Pois bem, é esse mesmo o tema de hoje: Amor. Ou será que devo dizer Paixão? Bom, a denominação pode parecer algo irrelevante mas de facto, não é.

   Enquanto meninas (e para muitos meninos também), a nossa infância é passada sobremaneira a sonhar com príncipes e princesas, castelos longínquos em locais inóspitos e plenos de fertilidade emocional e formosura. Todos os malditos contos e historietas que chegavam até nós eram de uma perfeição divina e faziam-nos crer que essas dinâmicas românticas e familiares eram efectivamente reais e perfaziam a “norma” de qualquer vida.

   Mas o tempo passou, essas meninas e meninos cresceram e ao invés de personagens repletas de tudo o que é belo, de casas na floresta e conversas com passarinhos, anões amigáveis ou lobos meio-maus, deparámo-nos com imensidões galopantes de feiura e desencantos. E não, não falo no lado físico da questão, refiro-me sim à podridão e malvadez de mil bruxas más que parece habitar nos corações de tantos falsos enamorados. Perante isto apraz-me dizer simplesmente: What the Fuck? Um WTF com letra maiúscula e a negrito, por favor.

   Desilusões amorosas são clichés, e sim, é crucial passar por elas para podermos dar o verdadeiro valor que o que é realmente verdadeiro – passo a redundância. Mas cai-se uma, cai-se duas, cai-se três e parece que à quarta estamos dormentes. Já não sentimos como antes, já não aspiramos a tanto como antes, já não nos entregamos como antes. Ficamos marcados, qual vaca cravada com um ferrete em brasa. E o pior? É que as outras é que são as vacas (ou bois), as que antes de nós deixaram lembretes do que não fazer e por isso nos danificaram enquanto seres individuais, condicionando todos os relacionamentos daí em diante. Vista bem a coisa, o lado emocional da vida moderna está hoje refém das acrobacias do gado alheio: vacas, porcos, cabras, bois.

   Como se isto não fosse obstáculo suficiente ao romance, outra questão maior se levanta: e então é amor ou paixão ou “uma cena”? Sim, sim meus caros. Nos dias que correm, temos mais denominações para relacionamentos a dois do que cartas num baralho. E percebê-las? Garantidamente pior do que desmistificar sonetos de Luís de Camões e letras do Abrunhosa.

   Após alguns anos de análise e estudo aprofundado, eis que cheguei a uma mão cheia de conclusões que me trouxeram alguma paz de espírito. Amor e paixão são indubitavelmente conceitos diferentes e, não andam amiúde de mãos dadas. A paixão é uma espécie de bomba nuclear de sensações irritantemente alegres, insaciáveis e incontroláveis que se traduz numa empolgação generalizada da mais pequena situação. Não assegura, porém, longevidade ou fidelidade. Para muitos este é o primeiro estádio de qualquer relacionamento, mas a mim parece-me mais a etapa solitária de um fantasma futuro em construção. Talvez isto explique o porquê da expressão: “paixão assolapada” – ou seja, disfarçada ou encoberta.

   Já o amor, esse é algo mais leve, menos comprometedor e mais consciente. Não amamos à primeira vista, vamos amando cada vez mais, porque vamos conhecendo cada vez mais de forma despretensiosa. Quando é amor, também não temos nada por certo, mas o medo de perder faz-nos ser mais atentos e deliberados ao invés de vulcânicos e explosivos. Mas aqui, o tempo pode ser igualmente um inimigo devastador, que expõe a totalidade do que somos de uma forma demasiado nua, revelando por vezes lados menos bonitos e principescos. A relação vai sofrendo tombos até atingir um nível de desgaste impossível de ultrapassar e então, tudo são arrufos e discussões, enfados e animosidades, ou simplesmente a indiferença instala-se.

   Resumindo este maranhal de ideias, por algum motivo as palavras “relações” e “ralações” são tão semelhantes. O facto de escolhermos continuamente fazermos parte de uma, nunca terá uma razão clara ou evidente. E não, mãe, não existem contos de fadas que terminem com “e viveram felizes para sempre”, porque a felicidade não depende única e exclusivamente de um sentimento ambíguo e demasidamente vago, que nunca chegamos a saber com total certeza se sentimos ou não, ou de um único ser que nos suporta.

   A felicidade, essa é bem mais simples de discernir para mim. Baseia-se não apenas no amor trazido por uma relação equilibrada, mas também pela amizade que nutrimos por aqueles com quem sempre partilhámos os nossos segredos mais sombrios e que ainda assim permanecem ao nosso lado, pela paixão que temos pelo que fazemos com a nossa vida, pela realização profissional, o amor incondicional de filhos e/ou sobrinhos, e outros que tais, pela vivência positiva que construímos connosco próprios ou o respeito por nós e pelos outros e pela nossa capacidade de lutarmos sem nunca nos resignarmos.

   No fim de contas, seja amor ou paixão, estejamos sós ou acompanhados, é o nosso entendimento daquilo que nos faz feliz que nos ajuda a erguer a cabeça todos os dias e continuar. É uma fórmula matemática em constante mutação com muitas somas, algumas subtracções, mas cujo resultado deve ser sempre igual a crescimento e aprendizagem.

   Enjoy 🙂

 

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foto: Ali Yahya em Unsplash

Um pensamento sobre “E vivi feliz para sempre

  1. Miss DeBlogger

    Felizmente eu não tive de procurar muito para encontrar a felicidade. Reconheço o meu namorado de quase 5 anos como sendo o meu melhor amigo acima de tudo. Moramos juntos e apoiamo-nos mutuamente contra as “feiuras e desencantos” do mundo. Para além disso adoptámos uma cadela que nos mói MUITO, mas que amamos como membro da nossa pequena família. Será um Feliz para Sempre? Por enquanto 🙂

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