Trabalhadores verdes

   Olá meus queridos!

   Hoje trago-vos um tema sério, um tema que há quase 12 anos me causa fricção e ultimamente em particular grande revolta – recibos verdes.

   No meu primeiro emprego, um centro de explicações ao domicílio onde eu tinha a função de atribuir professores ao vários alunos que tínhamos em carteira, regia-me por um horário (das 9h às 18h) e um rendimento fixos contudo, não tive o prazer de ter contrato algum a não ser de prestação de serviços. Actualmente este seria um perfeito exemplo de um “falso recibo verde”, mas com 22 anos, acabadinha de sair da faculdade por isso sem qualquer experiência profissional, pouco percebia destas andanças – confesso que ainda agora o meu entendimento destes assuntos é praticamente nulo – o que acompanhado pela curta duração da minha estadia lá devido a falência da empresa, e por ser o meu primeiro ano com actividade aberta tendo portanto uma série de isenções, não causou grande transtorno.

   Porém, com o andar da carruagem, fui ficando com a clara sensação de que:

     — estava a trabalhar para aquecer, pois o que ganhava em 9 ou 10 meses tinha que chegar para as despesas, impostos e cobrir os meses de verão em que não trabalhava mas ainda assim pagava Segurança Social;

     — a cada início de ano lectivo, o número de aulas diminuía, andava por vezes entre três ou quatro escolas diferentes, anos houve inclusivamente em que parecia que levava uma vida dupla – professora de dia, lojista de noite;

     — os anos foram passando e, apesar de 10 anos consecutivos a trabalhar para uma empresa e, faz agora, 9 para outra, fora algumas experiências mais curtas, realmente ninguém é insubstituível e somos (des)tratados como qualquer outro lazarone que pouco ou nada contribua para a sociedade;

     — nunca iria ter nada meu , isto porque sem contrato não se conseguem empréstimos e sem estes dificilmente se compra uma casa, um carro ou até mesmo, imagine-se só, um telemóvel a prestações!

   Neste momento, certamente tenho já duas facções nos meus leitores. Os que têm contrato e se acham explorados (que provavelmente são sim, peço desculpa desde já) e os que como eu, sobrevivem a recibos verdes. Faz parte do ser humano ter uma opinião. O digníssimo ainda ontem me dizia que não era capaz de viver assim, nesta dúvida salarial constante e dei por mim a responder-lhe: “Tu habituas-te!”. Triste, não é? Não me interpretem mal, adoro o que faço. Nasci para ser professora e é no meio dos miúdos que me sinto realizada mas caramba….12 anos passados e não tenho nada a não ser uma torrente de dúvidas anuais que, infelizmente, vêm como que cronometradas a cada Setembro.

   Bom, a verdade é que se finalmente achava que tinha encontrado o meu espaço, não obstante os malfadados papelinhos verdes e as restrições que eles me impunham, senti que tinha alguma estabilidade geográfica e mental, pois é indubitavelmente mais simples colaborar apenas com uma entidade e cumprir com todas as obrigações inerentes, do que ter que mudar a ficha de cada vez que me deslocava para o outro emprego. Pois bem, eis que tudo isso ruiu quando, ao exigir o meu pagamento mensal, na verdade o único direito que efectivamente tenho e não pode ser contestado, fui praticamente empurrada pela janela do 5º andar. Acreditem…. O director não gostou da minha exigência e estava decidido a mandar-me embora a uma curta semana do ano lectivo começar, não fosse o facto de não ter ninguém que me substituísse prontamente e de saber que os meus alunos me curtem aos montões!

   E agora, vocês perguntam: “Ok, mas o que é o idiota miserável do teu chefe tem que ver com recibos verdes?”. A vida tem destas partidas e se num dia estava sem nada, eis que no final da semana tinha já outras ofertas. Problema – se aceitasse as três opções que queria, o rendimento era bom, todavia, como ultrapassaria o limite máximo que alguém a recibos verdes pode encaixar anualmente mantendo a isenção do IVA e da retenção na fonte, fiz as contas e cerca de 40% do meu vencimento mensal iria apenas servir para encher um nadita mais os bolsos de Estado.

   Então vocês pensam, valerá a pena trabalhar mais 8h por semana para receber menos 200€ ao final do mês? Já para não falar da imensidão de papelada extra que temos que preencher no meu amigo portal das finanças, a declarar cada reles cêntimo que entra para que os hipopótamos comilões mos venham arrancar da mão.

   Ontem uma colega disse-me o seguinte: “Os recibos verdes existem porque são muito mais rentáveis para o Estado do que os contratos tradicionais” e não é que essa constatação me caiu que nem laranja no leite?! Portanto o Governo permite que grande parte da população portuguesa trabalhe nestas condições, sem qualquer fiscalização, sem critérios e directrizes claras que avaliem caso a caso, puramente para engordar as suas contas e as de todas as Directoras das Raríssimas, construir casas abandonadas do vizinho do avô do primo do Presidente da Junta, pagar ordenados aos inspectores e assistentes sociais que roubam crianças e as vendem a Reinos de Deus e outras seitas e ainda……atribuir casas e rendimentos de 700€ a párias, criminosos, delinquentes e comunidades que deixaram de ser nómadas porque perceberam que podiam levar uma bruta vida a viver às custas de um país inteiro, que se mata a trabalhar para poder pagar as contas ao final do mês!

     Fico mesmo feliz eu…a sério….

   Em jeito de conclusão, quero explicar o título do artigo. Chamei-lhe Trabalhadores Verdes porque é isso que me sinto, um balde bem jeitoso de porcaria que é deitado ao contentor para ser transformado continuamente naquilo que for mais conveniente aos dirigentes deste país. Verde, porque se formos muito rijos e reclamar-mos os nossos direitos somos descartados como uma fralda suja, com a conivência daqueles cujo único papel realmente importante deveria ser o de proteger o mexilhão que lhe garante ordenado, viagens e benefícios. E se todos os que estão nestas condições deixassem de pagar os impostos repugnantes que nos são exigidos durante um mês? Será que íamos todos presos ou que mudávamos alguma coisa?

   Enjoy 🙂

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